domingo, 13 de março de 2016

Livro 2 Página 2

Mariana me intrigara com sua pergunta, por que eu não iria querer desvendar minhas profundezas, se isso era tudo o que mais queria naquele momento? Ainda mais depois de uma temporada na escuridão, buscando aprender; pois eu voltara com mais dúvidas sobre mim do que com respostas e precisava saber o que me levara a trabalhar para o mal e por que devia tanto a Malaquias, visto que ele precisava de minha ajuda mais do que nunca. – Ortêncio – disse Mariana com sua voz suave – a maioria dos espíritos preferem deixar sua parte mais obscura em sua profundeza, uma vez que não é fácil se encontrar com o seu verdadeiro eu e saber quem se é de verdade. Não quero ofender o amigo, mas aqui é muito mais escuro do que as cidades que você visitou nas profundezas, este é o maior desafio do encarnado e continua sendo logo depois de ele desencarnar. Assim sendo, espero que minha pergunta não o tenha ofendido. – Não Mariana, você não me ofendeu, fiquei ainda mais curioso a respeito do que vou enfrentar e me sinto preparado e necessitado de tal experiência para assim continuar meu trabalho junto aos que ainda vivem na carne. Não quero deixar nenhuma ponta solta. – Curiosidade, meu amigo, é diferente de estar preparado. Concordo plenamente que não há outro caminho a seguir na evolução do espírito do que tomar a estrada que o leva ao autoconhecimento. Mas, isso não deve ser feito por mera curiosidade, espíritos mal preparados para esse momento tendem a cair em um abismo profundo de arrependimento, mágoas e remorsos. Mostrarei nosso trabalho antes que você decida se realmente quer passar por esta etapa agora, porém, lembro-lhe amigo Ortêncio, que esse é só o primeiro passo de muitos que você dará, pois somos eternos e o estudo de si mesmo dura uma eternidade. – Valei-me meu Pai Oxalá! – falei em tom de brincadeira. – Eu os deixarei agora, pois o trabalho me espera – disse-nos Iara, assim se despedindo e me deixando com Mariana. Como era de costume em Aruanda, as fachadas das construções não correspondiam ao tamanho que as mesmas tinham em seu interior e, ao penetrar na simples cabana, se eu já não estivesse morto morreria, tamanho impacto, pois me encontrava em um dos maiores e melhores centros neurológicos que a Terra pudesse imaginar. A primeira sala na qual entrei parecia ser um grupo de apoio com pessoas contando suas histórias. Contudo, todas usavam tocas magnéticas. Aqui, Ortêncio, analisamos o que as lembranças podem causar no espírito. Estas tocas magnéticas transmitem dados aos nossos trabalhadores e que se encontram em uma sala paralela a essa. Elas capitam tristezas, alegrias, e os danos que esses sentimentos podem causar ao espírito, além de possíveis benefícios. Apenas depois de passar por este teste é que o espírito começa realmente seu ingresso nas profundezas. Portanto, aqui eles contam suas trajetórias até o momento, ou o que se lembram dela, pois, como você já sabe, esta história de acordar no mundo espiritual lembrando de todas as encarnações e de tudo o que nesse plano combinou quando se preparava para elas, isso é tão somente para poucos seres de luz e amor. Nós, que nos encontramos em um processo lento de evolução, precisamos trabalhar muito para isso. – O que se faz aqui para que eles falem é a mesma técnica dos grupos de apoio da Terra? – perguntei. – Isso mesmo, porém aqui usamos técnicas um pouco mais eficientes e os inspiramos mesmo para que cada espírito que aqui venha possa se libertar de todos os medos e se coloque no lugar do seu próximo, com paciência e humildade. Repare que todos usam tocas, não só aquele que conta sua história no púlpito, ou seja, para que nenhuma sensação seja perdida ou desperdiçada. – Eu terei que me expor para todos os que aqui estão? – Sim, meu amigo, todos aqui falarão. Alguns estão há anos apenas ouvindo e isso também é válido. Pois as histórias dos outros já mudaram suas vidas e seu modo de ver o passado e o futuro, embora ainda não se sintam preparados para se expor. E isso não necessariamente perante o outro mas diante de si mesmos, pois falar de si para o outro é a parte mais fácil do processo, falar de si para si mesmo é que é o complicado. Ficamos, então, em silêncio, pois um jovem subira no púlpito e entre lágrimas nos contaria sua história: – Que Jesus me proteja, pois só eu sei o quanto sofro e aqui estou há 5 dias ouvindo aos nossos irmãos, que me deram coragem de desabafar com vocês, para, quem sabe, meu coração possa ser aliviado e eu consiga seguir em frente. Meu nome é André, desencarnei vítima de um acidente de carro no ano de 1999 e aqui estou desde então. Passei alguns anos na enfermaria de Oxóssi sem saber que lá estava, pois, meu mental me mostrava outra coisa, e isso me levou à loucura. Portanto, quando acordei fui transferido para a psiquiatria da Quinta Legião de Iansã. Vocês já estiveram lá? Recomendo que fiquem bem longe, uma vez que, se você não está preparado para conhecer a loucura, e visitar aquele lugar, lá ficara. Não há palavras para descrever os pacientes do local. Fui tratado com muito carinho pela equipe de lá, e hoje me trato nas clínicas de Iemanjá, para tentar me curar desse passado sombrio e de erros. Filho de Umbandistas desde quando nasci na última vida carnal, meu destino era a caridade exercida principalmente com a mediunidade e meus pais trabalharam muito para isso. Meu pai e minha mãe nunca cobraram por um atendimento ou benzimento, eram famosos em nossa cidade e ajudavam muito ao próximo. Nunca passamos necessidade, mas eu me perguntava como não tínhamos uma vida mais fácil, se meus pais tralhavam de segunda a sexta em seus empregos e nos finais de semana se dedicavam tanto ao próximo, portanto, seria mais que justo que a vida fosse mais grata com eles. E, ainda assim, quando fiz 18 anos, fui preparado para assumir o terreiro. Lembro da alegria do meu pai em minha coroação. Contudo, anos depois minha mãe adoeceu e veio a desencarnar, meu pai consumido pela tristeza foi se excluindo das tarefas do terreiro, ele ficava meses, anos, afastado, até que não mais pisou na casa que construíra para a caridade. Tomei aquele momento como o meu momento e comecei a cobrar por consultas e benzimento. Criei uma mensalidade altíssima e aqueles que não pudessem pagar que não frequentassem minha casa de cura e não mais de caridade. Comecei a viver no luxo e a dar as roupas mais luxuosas e as melhores comidas aos Orixás. Logo, eu já não percebia que estava no caminho errado e que isso me seria cobrado. Vendo aquilo, meu pai desencarnou sozinho com uma depressão profunda. Filhos da Casa que a frequentavam de longa data se afastaram, me deixando apenas com aqueles que compartilhavam dos mesmos desejos que eu. Contudo, sem caridade não existe fé e sem fé não existe cura e eu acabei sozinho na bebida, quando me encontrei em um precipício no fim da estrada. André mal conseguia falar, quando fechou os olhos e murmurou perdão aos pais e aos Orixás. Eu juntamente com ele chorava e difícil era encontrar naquele salão quem não se emocionara com aquele espírito. Uma maca foi estendida ao seu lado, algo aplicado em seu braço, e nós, então, saímos apressadamente, acompanhando André na procura por si mesmo....

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